Nutrição na Doença Renal Crônica: o que a evidência diz em 2025
Restrição de fósforo, proteína adequada e hidratação. Um guia completo e atualizado sobre manejo nutricional renal em cães e gatos baseado em evidências científicas.
Vet do Rim
O manejo nutricional é um dos pilares mais impactantes no tratamento da Doença Renal Crônica (DRC) veterinária. A dieta certa pode retardar a progressão da doença, reduzir sintomas urêmicos e melhorar significativamente a qualidade de vida do paciente.
Os quatro pilares nutricionais na DRC
1. Controle do fósforo — o mais crítico
A hiperfosfatemia é o fator dietético mais associado à progressão da DRC e à mineralização renal. O fósforo deve ser controlado desde o Estágio 2 IRIS.
Metas de fósforo sérico:
- Estágio 2: 2,5–4,5 mg/dL
- Estágio 3: 2,5–5,0 mg/dL
- Estágio 4: 2,5–6,0 mg/dL
Estratégias:
- Dieta renal com restrição de fósforo (prioridade)
- Quelantes intestinais de fósforo (hidróxido de alumínio, carbonato de cálcio, lantânio)
- Monitoramento mensal dos valores séricos
2. Proteína — quanto é adequado?
A restrição proteica moderada reduz a produção de ureia e outros catabólitos nitrogenados, aliviando os sinais urêmicos. No entanto, a restrição excessiva é prejudicial e pode levar a sarcopenia e desnutrição.
Recomendações práticas:
| Espécie | Proteína (g/kg/dia) | Observação | |---------|---------------------|------------| | Cão DRC | 1,4–2,0 g/kg | Proteína de alta qualidade | | Gato DRC | 3,5–4,5 g/kg | Gatos são mais sensíveis à restrição |
Importante: gatos são carnívoros obrigatórios com necessidades proteicas superiores. Restrição excessiva em felinos pode causar perda de massa muscular e piorar o prognóstico.
3. Hidratação — fundamental e frequentemente subestimada
A desidratação é um agravante importante da DRC, especialmente em gatos que naturalmente têm baixa ingestão de água.
Estratégias para aumentar a hidratação:
- Alimentação úmida (lata/sachê): aumenta a ingestão hídrica em 70–80% comparado ao seco
- Fontes de água corrente: gatos preferem água em movimento
- Fluidoterapia SC domiciliar: para estágios 3 e 4, muito eficaz e viável para tutores treinados
- Adição de caldo de frango sem sal: aumenta palatabilidade e ingestão hídrica
4. Potássio — reposição nos hipopotassêmicos
Hipopotassemia é comum em gatos com DRC avançada e contribui para miopatia hipopotassêmica (pescoço ventrofletido). A suplementação oral com gluconato de potássio é segura e eficaz.
Dietas renais comerciais: vale a pena?
Sim, as dietas renais veterinárias são formuladas especificamente para:
- Baixo teor de fósforo e sódio
- Teor proteico moderado e altamente digestível
- Alta densidade calórica (para manter o peso com menor volume)
- Adição de antioxidantes (vitamina E, C, ômega-3)
Limitação: a palatabilidade pode ser um problema, especialmente em gatos. A transição deve ser gradual (2–4 semanas) e o tutor deve ser orientado sobre a importância da adesão.
Suplementação de ômega-3
Os ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA) têm efeito nefroprotejor demonstrado em estudos experimentais, reduzindo inflamação glomerular e proteinúria. Dose recomendada: 40 mg/kg/dia de EPA+DHA.
Quando usar nutrição enteral ou parenteral?
Em pacientes com anorexia prolongada (> 3 dias), o risco de hepatolipidose (gatos) e catabolismo proteico (cães) justifica intervenção nutricional ativa:
- Sonda nasoesofágica: curto prazo (< 7 dias)
- Sonda de esofagostomia: longo prazo, excelente tolerância em gatos
- Nutrição parenteral: para pacientes com vômitos incoercíveis
Conclusão
A nutrição na DRC não é uma estratégia única. Deve ser individualizada por estágio, espécie, palatabilidade e contexto do tutor. O acompanhamento nutricional regular, idealmente a cada 3–6 meses, é fundamental para ajustar a dieta conforme a progressão da doença.
